A Loja de Histórias de Pedrinho Fonseca

Algumas pessoas escrevem tão bem que uma entrevista vira um texto corrido com facilidade. Assim, o próprio Pedro Fonseca vai contar aqui a história da sua Loja de Histórias.

Depois de seis meses e mais de 8.500 imagens recebidas, a Loja de Histórias recebeu o convite da Elle brasileira para ser uma coluna na revista.

A Loja de Histórias nasceu em setembro de 2012.

A ideia era muito simples: fazer um projeto colaborativo onde as pessoas enviassem fotos, sem me contar nada sobre elas (e que não fossem autorretratos) e eu devolveria esse presente escrevendo uma história ficcional sobre essa imagem. Um ponto de vista novo, algo que pudesse não corresponder exatamente ao que havia acontecido no momento do clique, mas sim trouxesse um olhar diferente.

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O objetivo principal era formar uma pequena rede onde as pessoas não apenas compartilhassem uma foto. Mas, através das suas fotos, me ajudassem a estimular a leitura –escrever é meu ofício e estava um pouco longe dele nesta forma, autoral.

Queria muito voltar a escrever de forma útil. E a Loja de Histórias conseguiu ser um ambiente maravilhoso para esta troca. Imaginei que receberia cem, cento e cinquenta fotos, no máximo. Estou chegando a 9 mil recebidas.

Liguei para três amigos para falar do projeto. Pio Figueiroa, um dos sócios da Cia de Foto, um coletivo brasileiro que admiro demais. Thiago Marques, que clica por hobby (estava em Londres, achei que poderia enviar uma foto com um cenário intrigante –e foi exatamente isso que ele fez).

E Julia Caiuby, com quem já dividi um trabalho do qual muito me orgulho (o design para o livro do jornalista Lula Falcão, “Todo dia me atiro do térreo” – ela fez o clique da capa, maravilhoso).

Entrei em contato com os três, foram meus pontos de partida. Só que o projeto acabou chamando a atenção de muita gente, depois ainda mais gente, até que a média de visitas diárias ao site me assustou e chegavam cem fotos por dia. Aí vi que tinha muito trabalho pela frente. Uma delícia. A reação dos três foi muito parecida, pelo fato de serem amigos próximos.

Uma certa alegria em dar início e uma generosidade sem tamanho em fazer isso sabendo que se tratava de um projeto colaborativo, sem fins lucrativos. As imagens não têm um valor mensurável. São memórias e registros que jamais conseguiria avaliar, digamos assim.

Tenho uma gratidão enorme por cada pessoa que manda uma foto. Por isso procuro falar com todos, trocar ideias, conhecer pessoalmente. A Loja de Histórias é um projeto que me trouxe muita felicidade.

Não sei se escolhi cinco histórias “preferidas”, mas vou tentar lembrar, de cabeça, de algumas que me marcaram. Evgenia (com esse v, mesmo), história criada para uma foto magnífica do Bob Wolfenson. A trilogia Recados (que está no ar, no segundo episódio, a hora de ler é agora!) que tem, até aqui, fotos de Mariana Fonseca e Feppa Rodrigues.

E “Mas nunca morno”, uma história escrita para uma foto hipnotizante da fotógrafa Pétala Lopes.

Para uma foto muito emblemática feita pela jornalista Daniela Arrais, a história “Mais ou Menos”. Ah, tem uma que tem muita importância para mim. A história “Por que?”, escrita para uma imagem forte de Alice Renez Tay, fotógrafa de Singapura.

Por fim, uma imagem histórica que me foi gentilmente enviada por Adriana Bittar. Escrevi a história “Eles traziam espelhos” para ela. Não são preferidas, mas ao mesmo tempo, são.

Como imagino o projeto em 10 anos? Puxa vida, que pergunta difícil. Imaginei seis meses e tudo mudou, imagine dez anos. Vamos ao exercício. Imagino que o projeto seja 100% colaborativo, com fotógrafos e escritores convidados (e eu apenas fazendo a curadoria). Seria lindo.

Eu vivo de literatura. O projeto sou eu. Minha vida reflete exatamente o que está ali. Não acredito em ficção, no fundo. E, assim, talvez, muitas histórias verídicas estejam sendo construídas, ali, sem que eu mesmo saiba.

Tem um projeto novo  do qual me orgulho muito, também autoral: www.doseupai.com Outro que divido com uma fotógrafa amiga, a Camila Svenson, que é o www.precisodizerumacoisa.com

E recentemente teve a estreia de um projeto que talvez seja o maior desafio que já enfrentei, porque não tem a ver com as palavras, mas sim com as imagens. Fui convidado para colaborar no site A Pattern a Day com uma coluna onde sou fotógrafo –e não escritor. Peço desculpas por qualquer barbaridade cometida contra a luz, antecipadamente.

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